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Carla Albuquerque, Jornalista Investigativa

Foto do escritor: Luciana Perez
Luciana Perez
há 12 horas
9 min de leitura

Crime não é um acontecimento isolado, é um resultado. Quando você assiste a um caso do começo ao fim, a tentação é sair com a sensação de que aquilo foi obra de uma pessoa má.


Carla Albuquerque
Carla Albuquerque

1. O que faz um caso criminal atravessar décadas e continuar despertando tanto interesse do público?


Não é o crime em si, é o que ele revela. Casos que atravessam décadas quase sempre tocam em alguma ferida coletiva que a sociedade não resolveu. Quando um crime acontece dentro de uma família que parecia comum, num bairro que parecia seguro, com pessoas que parecem com a gente, ele deixa de ser notícia e vira espelho. O público não volta a esses casos porque quer saber quem matou. Isso normalmente já está respondido. Ele volta porque quer entender por que aconteceu, e essa pergunta nunca fecha completamente. Tem também um segundo elemento, que é o processo. Quando a Justiça demora, quando existe recurso, progressão de regime, revisão de pena, o caso é reaberto no imaginário público a cada nova decisão. Cada audiência devolve aquele nome às manchetes. E há um terceiro fator que a gente fala pouco: a memória documental. Casos antigos que geraram muito material bruto, gravações, laudos, depoimentos, sobrevivem porque existe o que mostrar. O que não tem registro desaparece, por mais grave que tenha sido. Por isso tantos crimes brutais contra pessoas pobres, periféricas, negras, somem em duas semanas, enquanto outros viram objeto permanente de interesse.


Carla Albuquerque
Carla Albuquerque

2. Na sua visão, qual é a linha que separa o jornalismo investigativo do entretenimento no universo do true crime?


A linha é o método. Jornalismo investigativo é aquele em que você consegue mostrar de onde veio cada afirmação. Eu trabalho separando o que é fato apurado, o que é alegação de uma das partes, o que não está confirmado e o que é interpretação minha. Se você não faz essa separação, você não está investigando, está narrando. E narrar é legítimo, só não pode ser vendido como apuração. Entretenimento também não é palavrão. O problema é quando a estrutura narrativa passa a comandar a apuração, e não o contrário. Quando você já sabe qual é o clímax do episódio três antes de ler o inquérito, você inverteu a ordem das coisas. A pergunta que eu me faço antes de fechar qualquer material é simples: se o acusado, a vítima e o delegado, por exemplo, assistissem juntos, cada um reconheceria a própria posição de forma justa? Se a resposta for não, tem alguma coisa errada com o material jornalístico. Outro teste prático é o contraditório. Precisamos dar espaço a defesa. Se a defesa não respondeu, isso também é informação e precisa ser dito. Entretenimento puro não tem essa obrigação. Jornalismo tem, e é isso que separa os dois.


3. Você acredita que a popularização do true crime trouxe mais conscientização ou mais espetacularização dos crimes?


As duas coisas, e não dá para escolher uma. Eu vejo o efeito positivo todos os dias no retorno que chega. Mulher que reconheceu na própria relação um padrão de violência que ela achava que era ciúme. Mãe que entendeu que aquele adulto conversando com o filho dela em jogo online não era um amigo. Isso é uma conscientização, com consequência prática. Muita denúncia que chega às autoridades hoje nasce de alguém que assistiu a alguma coisa e entendeu que aquilo tinha nome. Só que o mesmo formato que informa também vicia. Existe uma produção enorme que trata crime como gênero de consumo, com trilha de suspense, reconstituição estilizada, gancho no final do bloco. Aí a vítima vira personagem secundário da própria morte. E tem um efeito mais silencioso, que é a dessensibilização. Quando você consome violência em volume industrial, o quinto caso já não dói como o primeiro. Isso é ruim para o público e é péssimo para quem faz. Não podemos deixar isso acontecer, não podemos nos dessensibilizar,

precisamos exercitar a nossa consciência. Eu não acho que a solução seja parar de

produzir conteúdos sobre o gênero, mas sim aumentar a exigência sobre ele e exigir

responsabilidade ética de quem produz.


4. Em tantos anos cobrindo casos complexos, qual investigação mais mudou a sua forma de enxergar a natureza humana?


O trabalho com redes de aliciamento de crianças e adolescentes em ambiente digital. Não foi um caso único, foi o acúmulo. Quando você começa a mapear como essas estruturas funcionam, você percebe que não está diante de indivíduos agindo por impulso. Você está diante de organização. Tem hierarquia, tem divisão de função, tem manual de abordagem, tem linguagem própria, tem critério de recrutamento e tem método de silenciamento da vítima. Isso desmonta completamente a ideia de monstro. Monstro é uma categoria confortável, porque monstro é exceção, é outro, é aquilo que não se parece comigo. O que eu encontrei foi gente organizada, paciente, que estuda a vulnerabilidade da criança com uma frieza técnica. E do outro lado, encontrei adolescentes que não têm com quem falar. Essa é a parte que mais me mudou. Em quase todos os casos existia um adulto responsável que não estava disponível de verdade. O criminoso não entra apenas por falta de segurança digital. Ele entra por falta de laços familiares, crise de saúde mental e de educação. Depois disso eu parei de fazer a pergunta sobre o que leva alguém a fazer isso e passei a fazer outra, que é sobre o que foi preciso falhar em volta para que isso durasse tanto tempo sem ser visto.


Prova de um crime
Prova de um crime

5. Como lidar com familiares de vítimas sem transformar a dor em espetáculo?


Começa antes da entrevista. A primeira coisa é a família saber exatamente o que vai

acontecer com aquilo que ela vai dizer. Onde vai ser publicado, em que formato, quem vai

participar e etc. Muita gente aceita falar sem entender que aquele depoimento vai circular

por anos. A segunda coisa é aceitar o não em qualquer momento, inclusive depois. Na

condução, eu evito a pergunta que existe só para produzir choro. A pergunta sobre como

você se sentiu quando recebeu a notícia normalmente não gera informação nenhuma, gera

imagem.E a imagem de dor rende, por isso é tão usada. Mas eu prefiro perguntar sobre o

processo penal, sobre o que a família tentou ou precisa e, principalmente, o que eles

querem dizer. O que precisa ser dito a ponto de eles aceitarem se expor em uma entrevista.


6. Há casos em que você optou por não divulgar determinadas informações por responsabilidade ética?


Como foi essa decisão? Sim, e mais vezes do que o público imagina. Existem três situações que eu trato como linha dura. A primeira é qualquer detalhe que permita identificar criança ou adolescente vítima, inclusive identificação indireta. A exposição de vítimas crianças só ocorre quando a vítima já faleceu, com autorização da família e utilizando uma imagem que não exponha a situação de violência. A segunda é método. Em casos que envolvem tecnologia, seja aliciamento em plataforma, seja fraude, seja invasão, existe informação que funciona como tutorial. Descrever o passo a passo de como um aliciador cria vínculo com uma criança não protege ninguém, ensina. Eu descrevo o padrão, o suficiente para uma mãe reconhecer, e paro de informar antes da parte operacional. A terceira é informação que pode comprometer investigação em andamento ou expor testemunha. Aí eu converso diretamente com a autoridade responsável, entendo o risco e seguro. É importante saber publicar depois, no momento em que não custa a segurança de alguém. A decisão nunca é confortável, porque você está abrindo mão de um furo, algo tão precioso no universo do jornalismo. Mas eu trabalho com um critério que me ajuda: se a única razão para publicar agora é ser a primeira, não é razão suficiente.


7. Muitos criminosos acabam ganhando notoriedade. Como evitar que a cobertura contribua para essa exposição?


Primeiro reconhecendo que a imprensa é parte ativa nisso, não observadora. Nome repetido cem vezes vira marca. Apelido criado em redação vira mitologia. Quando a gente batiza alguém com um codinome sonoro, a gente está fazendo trabalho de branding para um assassino, e isso já aconteceu inúmeras vezes na imprensa brasileira. Então a primeira medida é deixar de criar personagem. O segundo passo é cuidar do enquadramento narrativo. Por exemplo, muita cobertura constrói o acusado como o protagonista inteligente que enganou todo mundo, e isso é sedutor para um perfil específico de público. Eu prefiro deslocar o eixo para o sistema. Quantas vezes essa pessoa foi denunciada ante? Quantas medidas protetivas existiam? Quem descumpriu prazo? Isso é menos glamouroso e muito mais útil, pois apontam padrões e problemas sistêmicos. A terceira é a proporção de espaço. Se a vítima aparece em duas linhas e o autor em quinze minutos, o resultado está dado, independentemente do que você diz sobre ele. E tem uma questão que a gente precisa encarar com honestidade: a audiência responde bem ao autor de crime. Fingir que isso não influencia a decisão editorial é a parte hipócrita do debate.


8. Quais são os erros mais comuns cometidos pela imprensa na cobertura de grandes crimes?


O primeiro é tratar versões como fatos. Nas primeiras horas, tudo o que existe é

versão, de polícia, de família, de vizinho, de defesa. Quando o veículo publica isso sem

qualificar a origem, ele cria uma verdade que depois não consegue desfazer. A correção

nunca alcança o erro original. O segundo erro é a pressa com detalhe técnico. Já vi caso

grave em que a plataforma digital envolvida foi trocada por outra em cobertura nacional, e

mudou completamente a linha de investigação, a jurisdição e o pedido de preservação de

dados. O terceiro é o julgamento paralelo, que atropela o processo e depois deixa a conta

para a Justiça. O quarto é a cobertura de evento, que chega no dia do crime, faz três dias

de manchete e some. O caso continua, o inquérito continua, o júri acontece dois anos

depois e ninguém está lá. Investigação de verdade é acompanhamento longo, e isso custa

dinheiro, por isso é o primeiro corte que as redações fazem. E o quinto, que resume os

outros, é confundir volume com apuração. Publicar dez matérias por dia sobre um caso não

é cobrir melhor, muitas vezes é só ocupar espaço.


9. Na sua avaliação, o Brasil ainda enfrenta dificuldades para investigar crimes complexos ou o problema está na responsabilização dos autores?


Os dois, mas em

proporções diferentes dependendo do tipo de crime, e eu evito resposta única porque ela

seria imprecisa. Na investigação, houve avanço técnico na última década, principalmente

em perícia digital e em análise de dispositivos. Existem delegacias especializadas e

profissionais muito qualificados. O problema é que essa capacidade é desigual. Ela está

concentrada em algumas capitais e em alguns órgãos. O mesmo crime investigado em duas

cidades do interior, por exemplo, são diferentes e têm chances completamente diferentes de esclarecer o ocorrido, e isso é uma questão de estrutura e orçamento, não de competência individual. Sobre a responsabilização, o gargalo é o tempo. Processo que se arrasta por anos produz um efeito perverso, porque a prova envelhece, a testemunha muda de cidade, a família se cansa e a sociedade esquece. Impunidade no Brasil raramente é absolvição. Ela é prescrição, é arquivamento silencioso, é inquérito que fica parado. E existe um terceiro ponto que quase nunca entra nessa conversa, que é a falha na prevenção. Muitos casos graves tinham histórico anterior registrado. Havia denúncia, havia boletim, havia medida protetiva. O sistema sabia e não agiu. Investigar bem depois de morta é importante, mas a prevenção é importante.Por isso, expor estatísticas sobre determinado crime, explicar os trâmites do processo penal, as formas de denunciar e demais informações que envolvem o Direito e os casos policiais é necessário para conscientizar a população.


10. Depois de acompanhar tantos casos de violência, qual é a principal reflexão que você gostaria que o público levasse para casa ao consumir conteúdos de true crime?


Que crime não é um acontecimento isolado, é um resultado. Quando você assiste a um

caso do começo ao fim, a tentação é sair com a sensação de que aquilo foi obra de uma

pessoa má. E essa conclusão é confortável porque ela encerra a história.Só que quase todo

caso grave tem um rastro anterior, e esse rastro passa por muita gente que não era

criminosa. Passa por quem não acreditou, por quem não denunciou, por quem viu a

mudança de comportamento e não perguntou nada. Temos crimes motivados por

preconceito ou por comportamentos que, culturalmente, algumas pessoas consideram

aceitáveis. A pergunta que interessa não é o que aconteceu? É: por que aconteceu? E

como foi possível acontecer sem que ninguém pudesse evitar? Então, o que eu gostaria

que ficasse é uma inquietação. Se, depois de assistir a um episódio, a pessoa olhar para o

próprio celular, para o próprio filho, para a própria vizinha e fizer uma pergunta que não faria

antes, o conteúdo cumpriu essa função. Se ela só sentir aquele frio na barriga e for dormir,

virou consumo. Eu faço esse trabalho há muitos anos e continuo acreditando que

informação bem apurada muda o comportamento. Não muda todo mundo, e não muda

rápido. Mas muda o suficiente para valer a pena.


Entrevista - Luciana Perez



Carla Albuquerque, Jornalista Investigativa


Crime não é um acontecimento isolado, é um resultado. Quando você assiste a um caso do começo ao fim, a tentação é sair com a sensação de que aquilo foi obra de uma pessoa má.

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